Dubitando, ad veritatem parvenimus... aliquando! Duvidando, chegamos à verdade... às vezes!
 
A Palestina no tempo de Jesus, segundo escritos do século I

O Palácio de Herodes
(Pretório de Pilatos)

Frente a ela, a torre Hípicos, perto da qual 2 outras foram construídas pelo rei Herodes na antiga muralha. Pelas suas dimensões, pela sua beleza e pela sua solidez, ultrapassavam as torres do mundo inteiro. É que, com efeito, além do seu temperamento levado para a magnificência e para as suas ambições pela cidade, este rei procurava satisfazer, pela excelência das suas construções, afetos pessoais. Foi assim que ele consagrou, dando os seus nomes a estas torres, a memória das 3 pessoas que lhe foram mais caras: um irmão, um amigo e uma esposa. Se ele matou esta, (...) foi por amor. Perdeu os 2 últimos na guerra, onde tinham combatido valentemente.

A torre Hípicos, com o nome do seu amigo, era quadrada. Tinha de comprimento e de largura, para cada dimensão, 25 côvados, e 30 de altura, sem nenhuma cavidade no interior. Por cima desta massa de pedras, não formando mais do que um só bloco, havia uma cisterna de 20 côvados de profundidade para recolher as águas da chuva, e, por cima, uma construção de 2 andares, com a altura de 25 côvados, dividida em compartimentos, ornados de forma diversa, e sobrepujada em torno com torrinhas (=merlões) de 2 côvados e parapeitos (=ameias) de 3 côvados, de tal forma que a altura total se cifrava em 80 côvados.

A segunda torre, ele denominou-a com o nome do seu irmão, Fasael. Era tão longa como larga, com 40 côvados em cada dimensão, (1) e também 40 côvados de altura na parte maciça. Por cima, corria um pórtico de 10 côvados de altura, protegido por parapeitos e por saliências (?). A meio comprimento deste pórtico, elevava-se uma outra torre, compreendendo sumptuosos apartamentos e até banhos, de tal maneira que nada faltava a esta torre que lhe pudesse dar o aspeto de um palácio. O cume era ornado de parapeitos (=ameias) e de torrinhas (=merlões). A altura total era de cerca de 90 côvados. A sua silhueta assemelhava-se à da torre da ilha de Faros, (2) cujos fogos iluminam os navegadores que singram em direção a Alexandria. (...)

A terceira torre, Mariame, porque a rainha usava este nome, era uma construção maciça que atingia vinte côvados (de altura) e ultrapassava 20 côvados tanto em largura comoe em comprimento. Todavia, a parte habitável, em cima, era ordenada de forma muito mais sumptuosa e variada que nas outras; pensando o rei que uma habitação tendo o nome de uma mulher devia ser mais ornada que as que as que tinham nomes de homens, da mesma forma que estas últimas deviam ser mais potentes que a da mulher. A altura total desta torre era de 55 côvados. (3)

Com semelhantes dimensões, estas 3 torres pareciam ainda maiores, por causa da sua localização. Com efeito, a antiga muralha, sobre a qual elas se encontravam, tinha, também ela, sido construída sobre uma alta colina. Formava, como que a crista, muito mais elevada, desta colina, até uma altura de 30 côvados. E as torres elevando-se sobre esta crista, faziam ainda maior a elevação.

A dimensão das pedras era, também ela, admirável, porque não era de pedras banais ou de pedras transportáveis em braços de homens que estas torres tinham sido constituídas: tinha-se talhado em mármore branco. Cada um dos blocos media 20 côvados de comprimento por 10 de largura e 5 de espessura, tão ajustados entre eles que nenhuma das torres parecia ser senão um único rochedo surgido naturalmente e polido em seguida pela mão das pessoas da profissão para lhe dar a sua forma e as suas arestas. É que em nenhuma parte se notavam as juntas da alvenaria.

A estas torres, situadas a norte, era contíguo, no interior, o palácio do rei (hê toû basiléôs aulê), ultrapassando toda a descrição. Não lhe faltava nada, com efeito, da mais extrema magnificência e da mais perfeita organização. Era completamente cercado de muros de 30 côvados de altura, e, a intervalos iguais, marcado com torres ornamentais, vastas salas de banquetes e perto de uma centena de quartos de hóspedes. Continham uma indescritível variedade de pedras, porque aí se encontrava junto o que, em todo o lado, havia de mais raro. Havia tetos admiráveis pelo comprimento das vigas e pelo esplendor dos apainelados; e uma multidão de alojamentos, com formas infinitamente variadas e todos guarnecidos de mobília completa, onde dominavam, para cada um, os artigos de prata e de ouro.

(Havia) muitos peristilos (perístoa) em circuito (en kúklôi) uns após outros, com colunas diferentes para cada um. Todas as partes a céu aberto destas construções eram espaços verdes, com bosquezinhos de árvores de essências variadas, atravessados por longas alas, elas próprias cercadas de riachos profundos. Por todo o lado, (havia) reservatórios ornados em torno com figuras de bronze pelas quais brotava a água, e, em torno dos planos de água, numerosos pombais para pombos domésticos. (4)

Mas é impossível dar deste palácio a descrição que ele merece. Ainda por cima, lembrá-lo traz um verdadeiro tormento, porque isso evoca as devastações causadas pelo incêndio que os salteadores acenderam. Não foram os Romanos que queimaram estas maravilhas, mas é a obra dos facciosos da cidade no início da insurreição. (...) Foi pela torre Antónia que o fogo começou; ganhou, em seguida, o palácio e devorou os tetos das 3 torres.

(B. J. V, 136 - 183)

1) Esta torre estava situada no ângulo NE do palácio. Chegou até nós parte da base dela, cujas medidas se aproximam das que Josefo indica. As suas paredes são reconhecíveis pelas típicas bossagens das pedras, como acontece nas construções herodianas. A base é ligeiramente retangular.

Junto desta torre haveria uma porta virada para norte, à saída da qual Jesus foi ajudado pelo cireneu (Mt 27, 31-32; Mc 15, 20-21; Lc 23, 25-32).

2) O célebre farol de Alexandria, considerado uma das 7 maravilhas do mundo de então.

3) Estes 55 CV de altura distribuem-se da seguinte forma: 20 CV para a base, que era 10 CV mais baixa que a muralha do palácio; 1 piso de 10 CV de altura até ao cimo da muralha; 2 pisos de 10 CV de altura cada um, desde a muralha até às ameias da torre; e 5 CV (3 + 2) para as ameias com os merlões.

4) Como o Heródion, também este palácio de Herodes, em Jerusalém, seria um castelo de muralhas duplas paralelas, ligadas por muitos compartimentos e providas de torres salientes para o exterior. Ocupava uma extensão de cerca de 300 m por 60 m, formando um retângulo no sentido N - S. A parte NO, onde se encontravam as 3 torres que Josefo descreve, não era angular, mas arredondada. No centro desta cinta de muralhas com compartimentos, situar-se-iam vários peristilos ajardinados, ligados uns aos outros e aos compartimentos das muralhas. Nesse espaço interior situar-se-iam, talvez um de cada lado da entrada virada a oriente, os dois triclínios, Agripeion e Cesareion, de que Josefo fala (Supra), que seriam, certamente, duas grandes salas com tetos suportados por colunas, como a do palácio de inverno em Jericó ou como a do Heródion. Tendo em conta a altura de 30 CV da muralha do castelo, os compartimentos em torno, entre as muralhas duplas, estariam divididos em 3 pisos (de 10 CV de altura cada um) ou 2 pisos (o piso inferior podia ser mais alto). Os tetos eram planos, de madeira de cedro, e trabalhados. As paredes estariam revestidas com mármores de diversas cores, ou pintadas em diversas formas geométricas, como noutras construções herodianas. Os peristilos teriam altura equivalente à do piso inferior (de 10 a 15 CV). Os dois triclínios seriam mais altos que os peristilos, sobre os quais teriam as janelas dos lados. A porta oriental daria para o centro da ágora da «Cidade Alta», a praça empedrada conhecida como Gabbathá ou Lithóstrotos (Supra). Esta porta seria em arco, com torres de um lado e do outro, ao longo da muralha. No interior do palácio, essa mesma porta daria acesso imediato a um átrio, no qual devem ser localizados os diálogos entre Jesus e Pilatos, a flagelação (numa das colunas) e a coroação de espinhos.

(Confrontar com o Heródion, com o palácio de inverno de Jericó, com Massada (Masada), com o palácio de Diocleciano em Spalato, etc.).

Enquanto o Heródion e a Antónia tinham uma torre mais alta que as outras, este palácio de Herodes tinha 3 torres mais altas que as outras.

O Teatro de Jerusalém
(A. J.)

(Herodes) instituiu, em honra de César, jogos que deviam ser celebrados de 4 em 4 anos.

Fez construir, em Jerusalém, um teatro e na planície um vasto anfiteatro, edifícios notáveis pela sua magnificência, mas contrários aos hábitos dos Judeus. (...) Em torno do teatro, foram dispostas inscrições em honra de César, trofeus lembrando os povos que vencera e conquistara, tudo executado em ouro puro e em prata.

(A. J. XV, Cap. VIII, 1)

Conclusão das Obras do Templo
Pavimentação das Ruas com Mármore Branco
(A. J.)

Naquele momento, o santuário (hierón) estava terminado. (1) O povo via, pois, que os operários, em número de mais de 18 000, ficavam no desemprego e tinham necessidade de salários, porque até então ganhavam a vida trabalhando no santuário. Não queria poupar o dinheiro, com medo dos Romanos, mas, preocupando-se com os operários, queria dispensar o tesouro em favor deles. Com efeito, se um operário tivesse trabalhado não mais que uma hora por dia, era imediatamente pago por ela. (2) O povo exorta e persuade o rei para restaurar o pórtico oriental. Era este um pórtico exterior do templo, dando sobre um vale profundo, com muros de 400 côvados de comprimento, de blocos quadrangulares de mármore branco, sendo o comprimento de cada um de 20 côvados e a altura de 6. Era obra do rei Salomão, que foi o primeiro que construiu todo o santuário (hierón). (3)

Mas o rei, a quem o imperador Cláudio tinha confiado o cuidado de se ocupar do templo, refletiu que trabalho mais fácil era demolir, ao passo que construir era difícil, sobretudo tratando-se deste pórtico, porque isso exigia muito tempo e dinheiro. Afastou, pois, este pedido, mas sem se opor a que a cidade fosse pavimentada de mármore branco.

(A. J. XX, Cap. IX, 7. 219 - 222)

1) Em 64 d. C., vindo a ser destruído pelos Romanos no ano 70.

2) Cf.: Mt 20, 8.

3) Uma parte do muro oriental parece ser anterior a Herodes e até pode remontar aos tempos de Salomão. Essa parte do muro é que teria 400 CV ou talvez 500 CV de comprimento.

CESAREIA (MARÍTIMA)
Cesareia
(B. J.)

Tendo notado, na costa, uma cidade então em plena decadência – chamava-se Torre de Estratão – mas que, em razão da sua localização favorável, era bem feita para beneficiar das suas larguezas (1), ele reconstruiu-a inteiramente de pedra branca, ornou-a de palácios magníficos e foi lá, mais do que qualquer outro lado, que desdobrou a grandeza do seu génio.

De Dora a Jope, das quais esta cidade é equidistante, a costa, com efeito, encontrava-se desprovida de porto, de tal forma que qualquer viajante que seguisse a costa desde a Fenícia em direção ao Egito lançava a âncora ao largo por causa da ameaça do vento do sudoeste; porque mesmo quando sopra moderadamente, a ondulação eleva-se a tal altura contra os rochedos que o seu refluxo torna o mar perigoso até uma grande distância.

Mas o rei, à força de larguezas e de magnificência, conseguiu vencer a natureza: construiu um porto maior que o Pireu, e, nos seus reforços, ainda mais ancoradouros profundos.

Chocando, por todo o lado, contra a hostilidade do terreno, desafiou a dificuldade, fazendo que a solidez da construção fosse à prova dos ataques do mar, e que, pela beleza, ela fosse adornada como se não tivesse havido nenhum obstáculo.

Como se tinha fixado para as dimensões deste porto o termo de comparação que acabamos de indicar, fez imergir em plenas águas, até uma profundidade de 20 braças, blocos de pedra, a maior parte das quais media 50 pés de comprimento, 9 de altura e 10 de largura e por vezes mais.

Uma vez preenchido o fundo, o dique por cima do nível do mar apresentava uma largura de 200 pés, 100 dos quais de avanço contra o assalto das ondas, donde o seu nome de «quebra-mar», e o resto subjacente ao parapeito de pedra que corria em torno do porto. Este dique era marcado com torres muito altas, das quais a mais avançada e mais magnífica foi chamada Drúsio, segundo nome do enteado de César. (2) Havia lá uma multidão de câmaras abobadadas onde se pudessem abrigar os que acabavam de lançar a âncora. Todo o terrapleno circular que corria diante destas câmaras formava um largo passeio para quem desembarcava. A entrada do porto era a norte, porque nesta região é o vento do norte o mais calmo. Na entrada estreita, de cada lado, 3 colossos adossados a colunas: os da esquerda quando se entra são suportados por uma torre maciça, e os da direita por 2 blocos de pedra levantados e ligados entre eles, cuja altura ultrapassa a da torre que se eleva no outro lado.

As residências vizinhas do porto são, também elas, de pedra branca. As artérias da cidade convergem para o porto e são traçadas a intervalos iguais uns aos outros. Frente à entrada estreita, numa plataforma, um templo de César, notável pela sua beleza e pelas suas dimensões, tendo no interior um estátua de César maior que o natural, que não é inferior à de Zeus de Olímpia, em que se inspira, e uma estátua de Roma, (3) semelhante à de Hera de Argos.

Herodes dedicou a cidade à província romana, o porto aos que navegam nestas paragens, e a César a glória desta fundação, que, por este facto, ele chamou de Cesareia. (4)

Quanto ao resto dos edifícios, anfiteatro, teatro, (5) praças públicas, fê-los construir dignos deste nome.

Instituiu, também, concursos quinquenais, aos quais ele deu um nome tirado, também, do nome de César, e que ele inaugurou, fornecendo pessoalmente prémios magníficos, na 192.ª olimpíada, (6) concursos nos quais não somente os vencedores, mas também os que vinham em segundo e mesmo os que vinham em terceiro lugar recebiam a sua parte da munificência real.

(B. J. I, 408 - 415)

1) A construção de Cesareia exigiu mais de 12 anos. Terminou por volta de 10 ou 9 a. C.

2) Este enteado de Augusto é Nero Claudius Drusus (38 - 9 a. C.), pai de Germânico e filho de Lívia, casada em segundas núpcias com Augusto.

3) Quer dizer que este templo era dedicado conjuntamente a Augusto e a Roma, segundo as exigências do próprio Augusto: Em nenhuma província aceitou templos, a não ser que tivessem em comum com o seu o nome de Roma (Suetónio, Aug. 52).

4) Cesareia tornou-se uma cidade tão importante que foi escolhida para residência dos representantes do imperador. Tácito (Hist. 2, 78, 10) faz dela a capital da Judeia, com o mesmo título com que Antioquia da Síria. A população era maioritariamente pagã, mas compreendia, também, Judeus, que foram massacrados durante os tumultos de 66 (B. J. 2, 457).

5) Um teatro e um anfiteatro são edifícios característicos da civilização greco-romana. Foi nesse teatro de Cesareia, precisamente, que os Atos dos Apóstolos (12, 21 - 23) e F. Josefo (A. J. 19, 343 - 350) situam a cena em que Herodes Agripa I discursou à multidão e aceitou as lisonjas sacrílegas.

6) (12 - 9 a. C.).

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

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