Dubitando, ad veritatem parvenimus... aliquando! Duvidando, chegamos à verdade... às vezes!
 
A Palestina no tempo de Jesus, segundo escritos do século I

P. CORNÉLIO TÁCITO
HISTÓRIAS (Historiæ)

O Território dos Judeus | Jerusalém

O Território dos Judeus

O território (dos Judeus), do lado que olha o oriente é delimitado pela Arábia; a sul estende-se o Egito; a ocidente a Fenícia e o mar. Do lado setentrional, do lado da Síria, estende-se até longe.

Os homens são sãos e robustos; as chuvas, raras; o solo fértil. Os produtos são os dos nossos climas (mediterrâneos), e, além disso, as palmeiras e as tâmaras. As tâmaras são grandes e majestosas. O balsameiro é pequeno. À medida que os seus ramos engrossam de seiva, se se ferirem com um ferro as (suas) veias gelam. É preciso praticar a incisão com uma lasca de pedra ou com um caco. O suco que daí escorre é medicinal.

O principal monte deste país é o Líbano. Coisa espantosa: no meio dos ardores, permanece fresca e fiel às neves. É aí que o Jordão nasce e se alimenta.

O Jordão não é recebido pelo mar, mas depois de atravessar, íntegro, um lago, e depois um segundo, é retido pelo terceiro. (Este) lago, de imenso perímetro, uma espécie de mar, com sabor amargo, é de um odor pestilencial. Não é agitado pelo vento, nem suporta peixes nem pássaros aquáticos. As águas inertes suportam, como um corpo sólido, as coisas que se lançam lá. Os que sabem nadar e os que não sabem aguentam sem dificuldade. Numa certa época do ano rejeita betume, cuja extração a experiência ensina, como as outras artes. É um licor negro que se mantém em cima por ele, sobretudo quando se engrossa com vinagre. Os que têm a tarefa de o colher apanham-no com a mão e atiram-no para a extremidade do navio; daí, sem ajuda de ninguém, corre e preenche o navio até ser cortado. Não se pode cortar nem com cobre nem com ferro: foge com o sangue e com a roupa infestada com o sangue que as mulheres libertam mês a mês, segundo velhos autores. (1) Mas os nativos destes lugares dizem que as ondas agitadas de betume são rejeitadas e entregues à mão na margem; depois, secas com o calor da terra e com a força do Sol, são cortadas com machados e cunhas como traves ou pedras.

Não longe daí, ficam as planícies que se dizem terem sido outrora férteis e com grandes cidades habitadas, mas que foram consumidas por um raio; (2) e que permanecem vestígios: a própria terra, com aspeto de queimada, perdeu a força produtiva, pois todas as plantas que surgem espontaneamente, ou semeadas pela mão, ou abortam em erva ou em flor, ou desvanecem em cinzas se chegarem ao tamanho habitual. Quanto a mim, mesmo admitindo que outrora com um fogo celeste fossem queimadas cidades famosas, o lago com este hálito corrói a terra e corrompe o ar; e o que apodrece os grãos e os frutos é conjuntamente a sobrecarga do solo e do ar.

Mas, o rio Belo desagua no mar da Judeia. (3) Em torno da foz recolhe-se as areias, que misturadas com nitro, dão vidro, submetidas ao fogo. É uma margem pequena, mas não esgotada com as extrações.

(H. V, 6 - 7)

1) Como Flávio Josefo, Estrabão e Posidónio.

2) As cidades de Sodoma e de Gomorra. (Gn 18, 16-33. 19,1-29) Cf.: Supra.

3) Este ribeiro não se situava na Judeia, mas na Fenícia. Desaguava no mar, perto de Ptolemaide.

Jerusalém

Uma grande parte dos Judeus vive em aldeias dispersas; têm, porém, cidades. Jerusalém é a capital. Aí fica o templo, de imensa opulência. Nas primeiras fortificações fica a cidade; depois o palácio; depois o templo, fechado nas (fortificações) mais interiores. Para o Judeu, o acesso era só até às portas (do templo); no limiar eram proibidos de passar, a não ser os sacerdotes. (...) (1)

Mas obras e muralhas firmaram a cidade, difícil (de tomar) pela localização, que, mesmo na planície, a munissem suficientemente. Pois as muralhas, artisticamente oblíquas ou curvadas para dentro (obliqui aut introrsus sinuati), para que pusessem à vista os lados dos assédios, fechavam duas colinas muito elevadas. Os extremos do rochedo eram abruptos, e as torres, onde o monte ajudava, eram de 60 pés; nas depressões erguiam-se até 120 pés. (2) Eram admiráveis e parecidas, vistas pelos de longe. Dentro, estavam outras fortificações, circundando o palácio; e a vista do cimo da torre Antónia, (assim) chamada por Herodes em honra de Marco António.

O templo era em modo de fortaleza, e as (suas) muralhas eram próprias, (salientando-se) perante todos no trabalho e na obra; os próprios pórticos, que cercavam o templo, formavam um conjunto defensivo. Havia lá uma perene fonte de água; (3) debaixo da terra, os montes eram perfurados; (4) e havia piscinas e cisternas para as águas da chuva.

(H. V, 8 . 11 - 12)

1) Os Judeus que não fossem sacerdotes nem sequer tinham acesso até às portas do naós.

2) 60 P = 40 CV e 120 P = 80 CV. F. Josefo só fornece as medidas da parte maciça: 20 CV (= 30 P) de comprimento, de largura e de altura. (Supra).

3) A piscina de Siloé (?)

4) Alusão aos subterrâneos de Jerusalém.

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