Dubitando, ad veritatem parvenimus... aliquando! Duvidando, chegamos à verdade... às vezes!
 
A Palestina no tempo de Jesus, segundo escritos do século I

JERUSALÉM
O Palácio de Herodes, em Jerusalém
(Pretório de Pilatos)
(B. J.)

Naturalmente, existe lá o seu próprio palácio régio (basíleion) (1), que ele fez construir na cidade alta, e que compreendia 2 imensos edifícios (oíkoi) muito belos, com os quais um templo (2), realmente, não suportaria a comparação, a que ele deu o nome dos seus amigos, respetivamente Cesareion e Agripeion.

(B. J. I, 402)

1) O palácio de Herodes, na extremidade NO da cidade foi construído por volta de 24 a. C.

2) Não, evidentemente, o templo de Jerusalém!

Estes dois edifícios seriam as duas maiores salas do palácio, certamente com o teto suportado por colunas em três ou quatro lados, no interior, como se pode imaginar pelos vestígios do palácio de inverno de Jericó e do Heródion. Talvez se deva situar numa destas salas o encontro dos Magos do Oriente com Herodes. (Mt 2)

O Palácio de Herodes, em Jerusalém
(A. J.)

Depois, como a sua prosperidade tinha retomado um novo impulso, (Herodes) construiu para si um palácio na cidade alta. Construiu imensas salas, que receberam a mais rica decoração, ouro, mármores, revestimentos preciosos. Cada uma delas continha leitos de mesa, podendo receber um grande número de convivas, e tinha as suas dimensões e designações particulares; uma chamava-se, com efeito, de César, e a outra de Agripa.

(A. J. XV, Cap. IX, 3)

O Mercado da Cidade Alta, em Jerusalém

Floro, por enquanto, passou a noite no palácio (de Herodes).

No dia seguinte, fez erguer diante do palácio um estrado (bêma), onde se sentou. Os sumos sacerdotes, as personalidades influentes e os notáveis da cidade aproximaram-se e mantiveram-se diante do estrado. (1) (...)

Floro grita aos seus soldados que pilhem o mercado (agorá) dito «de cima» (ánô) (2) e que matem os que encontrem. Os soldados, (...) não só pilharam o lugar aonde tinham sido enviados, mas precipitaram-se em todas as casas e degolaram os ocupantes.

Era a debandada no desembocar das ruelas...

(B. J. II, 301, 305 - 306)

1) Cf.: Jo 19, 13-14: Pilatos, pois, ouvindo estas palavras, trouxe Jesus para fora (do Pretório) e sentou [-se] no tribunal (ekathisen epi bêmatos), no lugar chamado Lithóstrotos (=pavimento, lajedo), em hebraico, porém, Gabbathá (=altura?, eminência?, corcunda?). Era, porém, a preparação da Páscoa, cerca da hora sexta. E diz aos Judeus: «Eis o vosso rei!»

2) Imediatamente à frente do palácio de Herodes (um castelo comprido, situado na parte mais alta da cidade), ficaria uma ágora (um fórum), praça de mercado com colunatas em torno (menos, neste caso, do lado do palácio). Os pórticos dos mercados consistiam em lojas sucessivas com colunatas ligadas à frente, em torno de uma praça. Era, pois, à frente do palácio, certamente tendo uma porta entre torres voltada para a praça, que se realizavam os julgamentos, com a multidão reunida nessa praça. No Antigo Testamento diz-se que os julgamentos e os negócios eram à frente das portas fortificadas: Dt 21, 18-21; 22, 13-18; Rt 4, 1-11; Sl 127 (126), 5.

Desde a sua chegada, Céstio incendeia Bezeta, também chamada «Cidade Nova» (Kainópolis), e o lugar chamado «Mercado das Vigas» (Dokôn Agorá). Dirige-se, em seguida, em direção à cidade alta (ánô pólis), e estabelece o seu campo militar frente ao palácio régio. (3)

(B. J. II, 530)

3) Se à frente do palácio régio não existisse um espaço amplo, «a ágora de cima», seria pouco provável estabelecer lá um campo militar!

A Praça do Xisto, Frente ao Palácio dos Asmoneus
(Palácio de Herodes Agripa)

Agripa (...) convocou (...) o povo ao Xisto (xustón), (1) colocou perto dele, bem à vista, a sua irmã Berenice sobre o terraço da residência dos Asmoneus. Esta residência dominava o Xisto, frente à cidade alta, e uma ponte (2) ligava o santuário ao Xisto. Agripa falou...

(B. J. II, 344)

1) Xustón – lit. aplanado; alisado (para a caminhada ou para a corrida). Aqui, trata-se de uma praça, e, segundo parece por este texto, ligada ao palácio dos Asmoneus e situada num nível inferior. Situava-se a oeste do templo, no vale do Tiropeion, ou justamente acima. Seria este o ginásio mandado construir pelo sumo sacerdote Jasão, no tempo dos Macabeus? (1Mc 1, 14-15; 2Mc 4, 12-14ss).

O palácio dos Asmoneus devia estar encostado ao Xisto, mas num nível mais elevado.

2) Vd. Supra.

DESCRIÇÃO DE JERUSALÉM
(B. J.)

A cidade era fortificada por 3 muralhas do lado em que não era cercada de ravinas intransponíveis; porque aí, não havia senão uma única muralha. A própria cidade estava construída frente a frente, sobre 2 colinas separadas por uma ravina média, perto da qual as casas cessam de se empilhar umas sobre as outras.

Destas colinas, aquela em que se elevava a cidade alta era muito mais elevada e alongava-se segundo um eixo mais retilíneo. Também, em razão desta posição fortificada, tinha recebido do rei David o nome de Fortaleza (Este rei era o pai de Salomão, que foi o primeiro construtor do templo); chamamo-la agora «a Ágora de Cima». (1)

A outra colina, chamada Acra, carrega a cidade baixa, como sobre uma corcunda dupla.

Frente a esta última colina, uma terceira altura, naturalmente menos elevada que a Acra e que, na origem, era separada dela por uma outra larga ravina. Mais tarde, na época em que reinavam os Asmoneus, preencheu-se a ravina com vista de reunir a cidade ao templo: por trabalhos de nivelamento, abaixou-se a altura da Acra, para que, deste lado, se pudesse ver adiante erguer-se o templo.

Quanto à ravina dita «dos Queijeiros», que dissemos que separava a colina da cidade alta da colina inferior, desce até Siloé; porque era assim que nós chamávamos esta abundante fonte de água doce. (2)

Em direção ao exterior, as 2 colinas da cidade são cercadas de profundas ravinas e, por causa dos precipícios de um lado e do outro, o acesso não era possível em nenhum ponto.

1) A cidadela de David é atualmente localizada a sul da esplanada do templo, na colina Ofel (2Sm 5, 7).

2) A piscina de Siloé não é, na realidade, uma nascente de água: o rei Ezequias (em 700 a. C.) mandou escavar até lá um túnel de 520 m de comprimento, em forma de S, na rocha, desde a fonte de Gion, que, por ficar fora das muralhas, foi escondida (2Rs 20, 20; Jo 9, 6-7).

As 3 Muralhas

Das 3 muralhas, a mais antiga, por causa das ravinas e da colina em inclinação onde ela tinha sido construída, era difícil de tomar. Além da vantagem da sua localização, ela tinha sido solidamente construída por David e por Salomão e pelos reis que depois deles rivalizaram nesta construção. (1) No entanto, do norte, da Torre dita Hípicos, estendia-se até ao Xisto, (2) tocando, em seguida, a Sala do Conselho (Boulê), (3) e terminava no pórtico ocidental do templo. Na outra direção, a oeste, partindo do mesmo ponto (da torre Hípicos), atingia, através do lugar denominado Bethso, a Porta dos Essénios. (4) Daí, a sul, curvava-se até para lá da fonte de Siloé, após a qual, a este, obliquava na direção da Piscina de Salomão, (5) continuava até um lugar chamado Ophlas, onde se juntava ao pórtico oriental do templo.

A segunda muralha começava na porta que se chamava Porta de Gennath, que fazia parte da primeira muralha. Não cercava senão o bairro norte e subia até à (torre) Antónia.

A terceira muralha começava na torre Hípicos. Daí, ela atingia, em direção ao norte, a torre Pséphinos. Em seguida, descia em frente do monumento de Helena, rainha de Adiabene, filha do rei Izatés. Mergulhava entre as grutas reais, curvando-se até à torre de ângulo junto do túmulo denominado «do Pisão». Por fim, ligando à antiga trincheira, chegava ao vale chamado do Cédron. Esta última muralha foi construída por Agripa para cercar a excrescência da cidade que se encontrava então a descoberto, porque a cidade, devido ao excesso da sua população, tinha pouco a pouco transbordado das suas muralhas. Os habitantes, reunindo o bairro situado a norte do templo à colina, avançaram até bastante longe e cobriram com as suas habitações uma quarta colina, chamada Bezetha, situada frente à Antónia, mas separada dela por uma concavidade profunda. Este fosso foi cavado de propósito, para evitar que os alicerces da Antónia, se continuassem ligados à colina, se tornassem acessíveis e não fossem mais erguidos. Por este facto, a profundidade do fosso deu a estas torres uma grandíssima altura. O bairro recentemente construído foi chamado no país Bezetha, (6) que traduzido em grego se diria Kainópolis.

Como os habitantes deste bairro necessitavam de defesa, o pai do atual rei e do mesmo nome que ele, Agripa, (7) começou a muralha de que acabámos de falar; mas temendo que Cláudio César, pela importância do empreendimento, desconfiasse de algum espírito de revolução e de sedição, parou o trabalho no momento em que se acabava somente de lançar os alicerces. Efetivamente, a cidade teria sido invencível se esta muralha tivesse progredido com se tinha começado, porque ela era construída de blocos de 20 côvados de comprimento por 10 de largura, e não se teria podido facilmente miná-la com o ferro ou derrubá-la com máquinas de guerra. O próprio muro tinha uma espessura de 10 côvados; a sua altura teria sido verosimilmente mais elevada se a ambição do que a tinha começado não tivesse sido travada. Mais tarde, porém, ainda que fosse à pressa, foi erguida pelos Judeus até 20 côvados, com merlões de 2 côvados e parapeitos (=ameias) de 3 côvados, de tal maneira que a altura total atingia 25 côvados.

1) Esta primeira muralha é a única cujo traçado oferece poucas dúvidas. A parte norte desta muralha, que ia desde o palácio de Herodes até ao muro ocidental do templo, deve ter sido parcialmente substituída por uma ponte larga (de 15 m de largura) e comprida, da qual fazia parte o chamado arco de Wilson (Supra). É natural que esta substituição fosse consequência da construção da segunda muralha, a qual tornava desnecessária esta parte da primeira.

O traçado da segunda muralha é muito discutido na parte ocidental, onde se ligava à primeira muralha, porque neste espaço há muitos restos de muralhas. O próprio local da Porta de Gennath é desconhecido.

A terceira muralha, cujo traçado é muito discutido, incluía o local do Calvário, que antes ficava «do lado de fora da porta» (Hb 13, 11-12).

2) Vide Supra.

3) A sala do Sinédrio, o «Tribunal dos 71».

A Mishnáh situa a sala do Sinédrio a sul do átrio dos sacerdotes, sem lhe atribuir medidas que lhe permitissem tal função (Mid 5, 4). Dá a essa sala o nome de «Sala da Pedra Talhada» (Lishkat-ha-Gazith), como se não fosse normal as construções herodianas serem de pedra talhada! Diz, também, o Talmud, que 40 anos antes da destruição do templo (por volta de 30 d. C.), o Sinédrio foi expulso da Sala da Pedra Talhada para um local de comércio. (?!) A respeito da disposição interna, diz: «Os assentos estavam dispostos em hemiciclo, podendo cada membro ver todos os outros. O presidente (o sumo sacerdote) sentava-se no centro e os anciãos à sua direita e à sua esquerda» (Tosifta Sanh. 8, 1).«Dois secretários dos juízes mantinham-se frente a eles, um à direita e outro à esquerda. Recolhiam os votos dos que se pronunciavam por uma absolvição e dos que condenavam. O rabi Judá diz que eram três: além dos dois referidos, um terceiro recolhia a totalidade dos votos. Três filas de discípulos dos sábios estavam à frente deles, tendo cada um o seu lugar pessoal. Se fosse preciso designar (um deles para completar o número dos juizes presentes), o Sinédrio escolhia um dos da primeira fila. O seu próprio lugar tornava-se o de um dos da segunda fila, substituído, por seu lado, por um dos da terceira. Por fim, os juízes designavam um dos assistentes para vir sentar-se na terceira fila, sem substituir o que tinha passado para a segunda, mas guardando o seu estatuto pessoal.» (Sanh. 4, 3 s).

É mais credível, no entanto, que os juízes estivessem dispostos em U do que em semicírculo, o que não exigia uma largura tão grande. Mesmo assim, não podemos acreditar que o Sinédrio alguma vez tenha funcionado numa sala do períbolo interior do templo. A localização do Sinédrio no templo deve ser extrapolação de Dt 17, 8-13.

A boulê, segundo os dados de Josefo, ficaria perto do atual recinto do Muro das Lamentações, fora do templo, por conseguinte. Quanto à forma e ao aspeto dessa sala, nada sabemos; apenas podemos imaginá-los. Uma boulê (ou bouleutérion) grega era, normalmente, um edifício (ligeiramente) retangular. Tinha os assentos em semicírculo como num teatro, ou direitos e em 3 lados, e um teto de madeira suportado ou não por colunas. Neste caso, resta, também, imaginar as paredes de «pedras talhadas» com as bossagens típicas dos edifícios herodianos. Naturalmente, a cadeira do sumo sacerdote, ao fundo, seria mais saliente.

Talvez esta sala deve ser identificada com o chamado Átrio dos Capitéis ou Átrio Maçónico. É uma sala de 25 m por 18 m, coberta com abóbada de berço lisa e tendo pilastras nas paredes.

Como é de esperar, também a descrição que a Mishnáh faz do funcionamento do Sinédrio não condiz com o desenrolar da paixão de Jesus.

4) Nem esse lugar, nem a porta dos Essénios foram ainda atualmente identificados.

5) A «piscina do rei», seg. Ne 2, 14.

6) «Existe, porém, em Jerusalém, próximo à [porta] Probática, uma piscina, chamada em hebraico Bezata, tendo cinco pórticos.» (Jo 5, 2-4). Esta piscina, situada a norte do templo, era formada por dois tanques de uns 13 m de profundidade, formando um quadrado irregular de cerca de 100 m de comprimento por 80 m e 62 m de largura. O tanque meridional é maior que o tanque setentrional. Cercando estes tanques, havia quatro pórticos e havia ainda um 5.º pórtico no espaço entre os dois tanques. Em torno destes tanques, encontram-se restos de várias banheiras individuais, com alguns degraus. É natural que os paralíticos se atirassem, não à piscina, com 13 m de profundidade, mas a estas banheiras. O tanque setentrional ficava a um nível superior, donde se pode supor que, de tempos a tempos, poderia jorrar daí água para o tanque meridional.

7) Herodes Agripa I (41-43 d. C.).

As Torres das Muralhas

As torres ultrapassavam o muro em 20 côvados de largura e em 20 côvados de altura. Eram quadradas e maciças como o próprio muro. Pelo ajuste e beleza das pedras, elas nada diferiam de um templo.

Por cima da parte maciça das torres, que perfazia 20 côvados, havia salas magníficas, e, por cima, cisternas para captar as águas da chuva. (1) Cada torre tinha largas escadas redondas.

A terceira muralha tinha 90 torres deste género, e as cortinas (= muralhas) entre elas estendiam-se por 200 côvados.

A muralha intermédia era marcada com cerca de 14 torres e a antiga com 60.

O perímetro total da cidade era de 33 estádios. (2)

Por mais admirável que fosse o conjunto da terceira muralha, mais maravilhosa ainda de erguia no ângulo noroeste da torre Pséphinos, perto da qual Tito acampou. Com a altura de 70 côvados, (esta torre) permitia vislumbrar, ao nascer do sol, a Arábia e os últimos limites do território dos hebreus até ao mar. Era uma torre octogonal. (3)

(B. J. V, 142 - 160)

1) As torres poderiam ter telhados, donde a água da chuva seria recolhida para cisternas interiores. (Cisternas a céu aberto no topo delas fariam evaporar facilmente a água recolhida!) Talvez Josefo queira referir-se a ameias e a merlões, que, encobrindo, em torno, os telhados das torres, podiam dar a ideia de tanques. (Cf.: infra e Tácito).

Sobre os 20 CV da base maciça, haveria 2 andares de 10 CV de altura cada um, para perfazer os 60 pés de altura (= 40 CV) que Tácito indica. As escadas em caracol estariam inseridas dentro das paredes das torres.

2) Supra.

3) Não se conhecem vestígios de nenhuma torre octogonal, neste ângulo; contudo, a sua base poderia ser quadrada.

Juntamente com a terceira muralha, a torre Pséphinos foi construída em época posterior à dos Evangelhos.

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

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