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Subversão soviética da imprensa do mundo livre (1)

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Subversão soviética da imprensa do mundo livre: Uma conversa com Yuri Alexandrovitch Bezmenov, ex-propagandista do KGB

 

Griffin: A nossa conversa é com o Sr. Yuri Alexandrovitch Bezmenov.

O Sr. Bezmenov nasceu em 1939 num subúrbio de Moscovo. Era filho de um oficial soviético de alta patente. Foi educado nas escolas de elite dentro da União Soviética e tornou-se um especialista em cultura indiana e em línguas indianas. Teve uma carreira brilhante com a Novosti, que era (e ainda é, devo dizer) o braço ou a agência da imprensa da União Soviética; verifica-se que esta é também uma frente para o KGB. Uma das suas tarefas interessantes era fazer lavagem cerebral em diplomatas estrangeiros quando visitam Moscovo. E contar-nos-á como faziam isso e como planeavam a informação que eventualmente acabava na imprensa do mundo livre.

Escapou para o Ocidente em 1970, após ficar totalmente enojado com o sistema soviético, e fê-lo com grande risco para a sua vida. Certamente, é um dos grandes especialistas do mundo no tema de propaganda soviética, desinformação e medidas ativas.

Sr. Bezmenov, eu gostaria de começar, pedindo para nos contar um pouco das suas memórias de infância.

Bezmenov: Bem, a lembrança mais vivida da minha infância foi a Segunda Guerra Mundial. Ou, para ser mais preciso, o fim da Segunda Guerra Mundial. Quando, de súbito, os Estados Unidos de uma nação amiga que nos ajudou a derrotar o nazismo se transformou da noite para o dia num inimigo mortal. E foi muito chocante, porque todos os jornais estavam a tentar apresentar uma imagem de imperialismo americano beligerante e agressivo.

A maioria das coisas que nos ensinavam é que os Estados Unidos são uma potência agressiva, prestes a invadir o nosso país socialista lindo e livre. E que a CIA dos Estados Unidos está a lançar besouros de Colorado nas nossas lindas plantações de batatas para eliminar as nossas plantações. E todo o aluno tinha uma foto de um besouro de Colorado nas costas do caderno. E éramos instruídos para ir aos campos coletivos procurar esses pequenos besouros de Colorado. É claro que não conseguíamos encontrar nenhum. Nem sequer conseguimos encontrar muitas batatas! E, novamente, isto era explicado nas intrusões do poder imperialista decadente. A paranoia, a histeria antiamericana na propaganda soviética era a tal ponto, a tão alto grau, que muitas pessoas menos céticas ou menos teimosas de facto acreditavam que os Estados Unidos estavam prestes a invadir a nossa linda pátria-mãe. E alguns, secretamente, esperam que isto se realize!

Griffin: Isso é interessante!

Bezmenov: Sim!

Griffin: Bem, voltando à vida dentro da União Soviética, ou dentro de países comunistas em geral: neste país, ao nível universitário, primariamente, lemos e ouvimos que o sistema soviético é diferente dos nossos, mas não tão diferente, que há uma convergência a desenvolver-se entre todos os sistemas do mundo. E não faz muita diferença de verdade o sistema sob o qual você vive porque há corrupção, desonestidade, tirania e esse tipo de coisas. Pela sua experiência pessoal, qual é a diferença entre a vida sob o comunismo e a vida nos Estados Unidos?

Bezmenov: Bem, a vida é obviamente muito diferente, pelo simples motivo de que a União Soviética é um capitalismo de Estado (economicamente, é um capitalismo de Estado); em que um indivíduo não tem absolutamente nenhum direito, nenhum valor, a sua vida não é nada, é como um inseto, é descartável; enquanto nos Estados Unidos até o pior criminoso é tratado como um ser humano, tem um julgamento justo, e alguns faturam em cima dos seus crimes. Publicam as suas memórias nas suas prisões. E são generosamente pagos pelos vossos editores malucos. As diferenças (é claro) na vida quotidiana, são muito variadas, dependendo de quem você fala.

Na minha vida particular, nunca sofri com o comunismo, simplesmente porque cresci numa família de oficial militar de alta patente. A maioria das portas estava aberta para mim. A maioria das minhas despesas era paga pelo Governo. E nunca tive nenhum problema com as autoridades ou com a polícia. Então, por outras palavras, diria que gozei ou que tinha bons motivos para gozar das vantagens do dito sistema socialista. As minhas principais motivações para desertar eram (não tinha nada a ver com a afluência, era mais indignação moral, protesto moral) rebelião contra os métodos desumanos do sistema soviético.

Griffin: Bem, especificamente, que é que você objetava?

Bezmenov: Eu objetava, antes de tudo, a opressão dos meus próprios dissidentes e intelectuais. E esta foi a coisa mais nojenta que presenciei quando jovem, jovem estudante. Fui criado num período problemático da nossa história, de Stalin a Khrushchov, da total tirania e opressão a um certo tipo de liberalização.

Em segundo lugar, quando comecei a trabalhar para a embaixada soviética na Índia, para meu horror, descobri que somos milhões de vezes mais opressores do que qualquer potência colonial ou imperialista na história da humanidade; que o meu país não traz à Índia liberdade, progresso e amizade entre as nações, mas racismo, exploração e escravidão; e (é claro) ineficiência económica para este país. Desde que me apaixonei pela Índia, desenvolvi algo que, pelos padrões do KGB, é algo extremamente perigoso. É chamado de «dupla lealdade», quando um agente gosta mais do seu país de atribuição do que do seu próprio país. Apaixonei-me literalmente por este lindo país, um país de grandes contrastes, mas também de grande humildade, grande tolerância e liberdades filosóficas e intelectuais. Os meus antepassados viviam em cavernas e comiam carne crua, enquanto a Índia era uma nação altamente civilizada, há 6000 anos atrás. Então, obviamente, a escolha não foi para a vantagem da minha própria nação. Decidi desertar e desassociar-me inteiramente daquele regime brutal.

Griffin: Sr. Bezmenov, lemos um pouco sobre os campos de concentração e campos de trabalho escravo sob o regime de Stalin. Agora, a impressão geral na América é que essas coisas são parte do passado. Ainda está a acontecer hoje, ou qual é a situação?

Bezmenov: Sim, sim. Não há mudança qualitativa no sistema soviético de campos de concentração. Há mudanças no número de prisioneiros. Mas, novamente, isso são estatísticas soviéticas inconfiáveis. Não sabemos quantos prisioneiros políticos estão nos campos de concentração soviéticos. O que sabemos ao certo de várias fontes é que, em cada época em particular, há cerca de 25 a 30 milhões de cidadãos soviéticos que são mantidos virtualmente como escravos no sistema de campos de trabalho forçado. Uma população do tamanho de um país como o Canadá está a cumprir penas como prisioneira!

Griffin: Incrível!

Bezmenov: Então, eu diria que aqueles intelectuais que tentam convencer o público americano de que o sistema de campos de concentração é algo do passado, ou estão a enganar conscientemente a opinião pública ou não são pessoas muito intelectuais: são seletivamente cegas. Eles não... Falta-lhes honestidade intelectual quando dizem isso.

Griffin: Bem, falamos de intelectuais neste país e de intelectuais na União Soviética. Mas, e no nível mais baixo das massas? As pessoas em geral, as pessoas trabalhadoras, os trabalhadores em geral, na União Soviética, apoiam o regime? Qual é a atitude delas?

Bezmenov: Bem, o cidadão médio soviético (se é que tal animal existe, é claro) não gosta do sistema porque ele machuca, mata. Pode não entender os motivos, pode não ter informação suficiente ou instrução para entender, mas duvido muito que haja muitas pessoas que conscientemente apoiem o sistema soviético. Não existem tais pessoas na União Soviética. Mesmo aqueles que têm todas as razões para gozar do socialismo (pessoas como eu, que fui membro da elite jornalística) também odeiam o sistema por motivos diferentes, não porque lhes falte afluência material, mas porque não são livres para pensar, estão sob medo constante, duplicidade, dupla personalidade. E esta é a maior tragédia para a minha nação.

Griffin: Bem, que possibilidades acha de o povo chegar a superar o regime ou de o substituírem?

Bezmenov: Há uma grande possibilidade de o sistema, cedo ou tarde, ser destruído de dentro. Há um mecanismo autodestrutivo entranhado em todo o sistema socialista, comunista ou fascista; porque não há retorno, porque o sistema não conta com a lealdade da população.

Mas enquanto esta junta soviética estiver a ser apoiada pelos ditos imperialistas ocidentais (quer dizer, multinacionais, estabelecimentos, Governos, e — admitamos — intelectuais — a dita «academia» nos Estados Unidos é famosa por apoiar o sistema soviético), enquanto a junta soviética continuar a receber crédito, dinheiro, tecnologia, acordos de cereais e reconhecimento político de todos estes traidores da democracia ou da liberdade, não há esperança ou não há muita esperança de mudanças no meu país. E o sistema não desmoronará sozinho, simplesmente porque está sendo alimentado pelo dito imperialismo americano. Este é o maior paradoxo da história da humanidade: quando o mundo capitalista apoia e alimenta ativamente o seu próprio destruidor (destrutor).

Griffin: Acho que você está a tentar dizer-nos algo, a este país.

Bezmenov: Ah, sim! Estou a dizer que tem e ser impedido, a não ser que queiram acabar no sistema de gulags e gozar de todas as vantagens da igualdade socialista: trabalhar de graça, catar pulgas no seu corpo, dormir em tábuas de compensado — agora, no Alasca, suponho eu… Este será o lugar dos americanos, a não ser que acordem (é claro) e forcem o seu Governo a parar de ajudar o fascismo soviético.

Griffin: Disse-nos há pouco por que deixou o sistema. Eu gostaria de ouvir detalhes de como o deixou. Deve ter sido algo muito perigoso.

Bezmenov: Não foi tão perigoso; foi maluco. Primeiro de tudo, porque desertar na Índia é virtualmente impossível, graças a uma pressão muito forte do Governo soviético.

Griffin: Desculpe. Você estava na Índia, em missão, na época…

Bezmenov: Sim. Estava a trabalhar para a embaixada soviética, em Nova Deli, como oficial de imprensa. E desertar, para um diplomata soviético, é quase impossível, é suicídio, como eu disse, porque uma grande amiga, Indira Gandhi, empurrou uma lei no parlamento que diz: «Nenhum desertor de nenhum país tem direito a asilo político em nenhuma embaixada no território da República da Índia», o que é uma obra-prima da hipocrisia. Nenhum desertor exceto o soviético precisa de um asilo político.

Então, sabendo perfeitamente disso, eu planeei a maneira mais maluca possível de desertar. Estudei contracultura na Índia. Havia milhares de rapazes e raparigas americanos, sem sapatos, de cabelos compridos, fumando haxixe e maconha, estudando às vezes filosofia indiana, às vezes simplesmente fingindo estudar; e amolavam muito a polícia indiana e eram motivo de piada para os indianos, porque (é claro) não eram estudantes bons para nada. Estudei cuidadosamente onde se reuniam, que rotas percorriam, em que língua falavam, o que fumavam. E, um dia, uni-me simplesmente a um grupo de hippies para evitar deteção pela polícia indiana. Eu estava vestido como um típico hippie, com jeans azul, camisa comprida, com todo o tipo de decoração bonita como contas, cabelos compridos… Comprei uma peruca, porque tive de me transformar em algumas semanas de um diplomata soviético conservador num hippie americano bem progressista. E esta foi a única maneira com que pude evitar deteção. Foi uma experiência muito interessante, mas foi necessária, porque do meu próprio conhecimento como funcionário da embaixada soviética soube de muitos casos em que desertores russos foram traídos pela polícia indiana. E algumas embaixadas ocidentais também desempenharam um papel muito sujo ao trair os desertores soviéticos. De acordo com a nossa informação, havia alguns (não os chamaria de agentes duplos, mas simplesmente de pessoas imorais) trabalhando para a embaixada dos Estados Unidos. E confiar nesse tipo de gente seria um suicídio. Então, tinha de ter muito cuidado. Não podia confiar em ninguém. Esta foi a razão para essa maneira maluca de desertar.

Griffin: Se tivesse sido apanhado no ato de tentar fugir, o que teria acontecido consigo?

Bezmenov: O mais provável é que eu acabasse num campo de concentração ou, dependendo da situação ou da vontade de algum burocrata do KGB, talvez até executado. Isto é prática comum, discretamente (é claro), não publicamente. Mas este seria o fim da minha deserção (é claro).

Griffin: Bem. Quando é que chegou finalmente aos Estados Unidos?

Bezmenov: Em 1970, depois de cerca de 6 meses de interrogatório em Atenas pela CIA e, presumo, pelo FBI também, deixaram-me ir primeiramente para a Alemanha e depois para o Canadá. Esta foi a minha decisão. Tinha de mudar a minha identidade para proteger a minha família e os meus amigos na União Soviética. E também estava um pouquinho paranoico, sabendo que o KGB russo e provavelmente alguns agentes duplos no sistema americano estavam talvez atrás de mim. Então, queria estabelecer-me o mais longe possível e pedi à CIA para me dar alguma nova identidade e simplesmente me deixar ir embora por minha conta e estabeleci-me no Canadá. Era estudante, e mudei de várias profissões, de ajudante de fazendeiro, motorista de camião, de lavandaria, a instrutor de línguas e locutor de rádio para Corporações Canadianas de Rádio (CBC) em Montreal.

Griffin: Teve alguma ameaça à sua vida ou quaisquer coisas desagradáveis?...

Bezmenov: Sim. Em 5 anos, o KGB descobriu, eventualmente, que, na época, eu estava a trabalhar para a rádio canadiana. Cometi um erro muito grande: Comecei a falar (trabalhando para o serviço internacional da CBC, que é similar à Voz da América) na língua russa. E (é claro) o serviço de monitoramento na União Soviética captava toda a nossa voz. Todo o novo locutor, tratavam de descobrir quem era. E, em cinco anos, foi certo (devagar, mas certo): descobriram que não sou Thomas Schuman, que sou Yuri Alexandrovitch Bezmenov, e que estou a trabalhar para a rádio canadiana e solapando a linda détente entre o Canadá e a União Soviética. E o embaixador soviético Alexander Yakovlev fez o seu esforço pessoal para me desacreditar. Reclamou com Pierre Trudeau, conhecido por ser um pouco frouxo com o socialismo. E a direção da CBC comportou-se de uma maneira estranha e covarde, indigna de representantes de um país independente como o Canadá. Escutaram toda a sugestão que o embaixador soviético deu e começaram uma vergonhosa investigação, analisando o conteúdo das minhas transmissões para a União Soviética. E, de facto, descobriram que algumas das minhas afirmações eram provavelmente muito... seriam ofensivas ao politburo soviético. Então, tive de deixar o meu emprego. E (é claro) intimidações subtis: Diziam algo como «Por favor, cuidado ao atravessar a rua, porque o tráfego é muito pesado em Québec». E, felizmente, sei acerca da psicologia e da lógica da atividade do KGB e nunca me deixei intimidar. Essa é a pior coisa. Isso é o que eles esperam de uma pessoa, um desertor: ser intimidado. Assim que percebessem que você está assustado continuariam a desenvolver esta linha ou então, eventualmente, tem de se render inteiramente e trabalhar para eles, ou eles neutralizam-no: impedem definitivamente todo o tipo de atividade política, o que falharam em fazer no meu caso. Como eu estava a trabalhar teimosamente para a emissora canadiana, e em resposta às intimidações deles, disse «Olhe: este é um país livre, e sou tão livre quanto você e também posso conduzir bem depressa; e controlo de armas não está ainda estabelecido no Canadá, então eu tenho um par de boas espingardas no meu porão; então esteja à vontade para me visitar algum dia com as suas metralhadoras Kalashnicov». Então, obviamente, não funcionou. Intimidação não funcionou. Então tentaram uma estratégia diferente. Como descrevi, eles foram pelo nível mais alto, no nível da burocracia canadiana.

Griffin: E neste nível conseguiram.

Bezmenov: Neste nível conseguiram. No nível individual, fracassaram. Liso.

Griffin: O Sr. Bezmenov trouxe uma série de diapositivos com ele, que trouxe da União Soviética, e creio que esta é uma boa hora para dar uma olhadela nos diapositivos.

Bezmenov: Sim.

Griffin: O público poderá ver esses diapositivos, enquanto falamos deles.

Bezmenov: Sim. Essa é uma coleção de diapositivos em que alguns deles são fotos do meu álbum de família, alguns são documentos que contrabandeei da embaixada soviética e alguns são reproduções da comunicação social local. Normalmente, mostro-os para confirmar a minha credibilidade como desertor.

Esta é uma foto da minha cidade natal, Mytishchi, a cerca de 20 milhas ao norte de Moscovo. Caracteristicamente, está uma estátua do camarada Lenine na praça central.

Este sou eu aos 7 anos, de novo caracteristicamente abaixo da estátua do camarada Stalin estendendo a sua mão amiga para os povos do mundo. Nesta idade (é claro), eu ainda era um jovem comunista de mente idealista e ainda acreditava que cedo ou tarde as coisas melhorariam. Mas percebi que o sistema fede, que tem algo de estranho e que a ideologia é falsa e que a propaganda do avanço da agricultura soviética simplesmente não satisfazia o critério da realidade. Falavam de abundância de comida e não tinha nenhuma nas lojas. Deve ter algo de errado.

O meu pai era (está à esquerda, aqui) o meu pai era oficial do quadro geral do exército soviético. Era inspetor de tropas terrestres: tropas soviéticas estacionadas em países como Mongólia, Cuba, países do Leste Europeu. Se ele fosse vivo hoje, o mais provável é que estivesse a inspecionar tropas soviéticas na Nicarágua, Angola e muitas outras partes do mundo. Felizmente, morreu e não viu a desgraça porque, no fundo, era um patriota russo. Ele não estava afim, não gostava da ideia de expandir o poderio militar soviético, especialmente nas regiões onde não éramos bem-vindos de forma alguma. Diferente de muitos outros oficiais militares, ele relacionava-se diretamente com o ministro da defesa, ignorando o KGB e o serviço diplomático. Noutras palavras, era um profissional militar confiável. E a minha impressão é de que esse tipo de pessoa é muito menos guerreira e aventureira que burocratas do partido no Kremlin. Quando a comunicação social americana descreve o poderio militar soviético como uma contraparte potencialmente perigosa para o Pentágono, simplesmente rio-me, porque sei melhor. Sei que a parte mais perigosa da estrutura de poder soviética não é militar de maneira nenhuma. Mas, provavelmente, se subissem ao poder no meu país, seriam negociadores mais sensatos para o desarmamento nuclear e retirada de tropas soviéticas de várias partes do mundo.

Griffin: Mas se alguém da estrutura do partido ou da estrutura do KGB desse ordens para intervenção militar...

Bezmenov: Teriam de obedecer. Sim, porque são militares profissionais. Mas eles… Veja: o triângulo de poder e ódio na União Soviética é o partido no topo (a elite do partido, a oligarquia do partido) e aí os militares e o KGB na base. Eles odeiam-se. E o triângulo mais odiado — a ponta mais odiada do triângulo — são os burocratas do Partido Comunista. São os megalomaníacos mais senis e aventureiros: Podem começar a guerra. Não me surpreenderia. Os militares não. Eles sabem o que é a guerra. Pelo menos o meu pai sabia.

Esta é a foto tirada à porta do meu Instituto de Línguas Orientais — é parte da Universidade Estatal de Moscovo. Formei-me em 1963...

Griffin: Desculpe. Qual deles é você?

Bezmenov: Estou à direita.

Griffin: Está à direita.

Bezmenov: À esquerda, está o meu colega Vadim Smirnoff que, depois, foi apparatchik no comité central no Partido Comunista da União Soviética.

Griffin: O que é um apparatchik?

Bezmenov: É um funcionário, como um servidor público no Império Britânico. Alguém que nunca é despedido do serviço. Alguém que fica lá eternamente. Pode até não ser muito promovido, mas é um burocrata de confiança que ficará para sempre.

Não estudei apenas linguagens, mas também história, literatura e até música. Nesta foto estou a tentar aprender um instrumento musical indiano. Até tentei parecer-me com um indiano, quando eu estava no segundo ano.

Griffin: Nada mau, realmente!

Bezmenov: Sim! De facto, era muito encorajado pelos instrutores, na minha escola, porque os formandos da minha escola eram depois empregados como diplomatas, jornalistas no estrangeiro ou espiões.

Como todo o estudante soviético, fui «voluntário» para colher cereais no Cazaquistão. Esse foi o maior falhanço agrícola do governo soviético. Mas eu não tinha muita escolha (é claro) porque o lema comunista, emprestado da Bíblia, diz: «Aqueles que não trabalham não comerão». Então, pode ver-me a comer, logo eu estava a trabalhar e você pode ver quanto eu estava feliz com isso.

Passei por um treino físico e militar muito extenso, incluindo as manobras, incluindo os jogos militares nas áreas suburbanas de Moscovo. E aqui, por exemplo, estamos numa volta pela área de Aranginsk.

No final da minha instrução na escola, fui recrutado pelo KGB. Esta foto foi tirada nesse dia, e pode ver quão feliz é ser recrutado pelo KGB.

Griffin: A nossa conversa com Yuri Alexandrovith Bezmenov, que foi desertor da União Soviética e ex-agente de propaganda para a Novosti e o KGB, continuará após o intervalo.


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