Dubitando, ad veritatem parvenimus... aliquando! Duvidando, chegamos à verdade... às vezes!
 
Sinopse dos quatro Evangelhos — Critérios de elaboração

» Tabela sinóptica dos quatro Evangelhos
Critérios de elaboração | Legendas | Amostra de um dos textos harmonizados | Historicidade dos quatro Evangelhos

Uma concordância e uma sinopse dos Evangelhos, embora não servindo para uso litúrgico, são, contudo, muito úteis para as restantes utilizações particulares e públicas.
Esta nossa tabela sinóptica e a nossa concordância (ou harmonização) dos Evangelhos foram feitas segundo os seguintes critérios:
  1. Nesta harmonia, não há mutilações de nenhum dos 4 Evangelhos.
  2. Conforme a necessidade, comparámos as perícopes, texto a texto, frase a frase, expressão a expressão e palavra a palavra.
  3. Seguimos a ordem cronológica, quando é possível ter referências cronológicas concretas, o que raramente acontece.
  4. Partimos do princípio de que certas referências temporais presentes nos Evangelhos («então», «em seguida», «depois», «naqueles dias», «naquele tempo», «naquele dia», etc.) têm pouca relação temporal ou mesmo nenhuma com os acontecimentos que lhes deram origem. (Um exemplo flagrante: Lc 24, referindo-se ao que aconteceu ao longo de 40 dias, narra-o como se tudo tivesse acontecido no mesmo dia!)
  5. Como não temos possibilidade de conhecer a ordem cronológica exata dos acontecimentos evangélicos, qualquer ordem que para eles adotemos será, forçosamente, convencional. Assim, seguimos, sempre que possível, a ordem presente na maioria dos Evangelhos, em detrimento da minoria.
  6. Quando não é possível desempatar pela maioria nem por nenhum critério objetivo, optámos por apresentar as perícopes nos vários momentos em que são encontradas nos Evangelhos.
  7. Não vemos nenhum motivo para considerar que a ordem seguida por Lucas seja melhor que a de Marcos e a de João, apesar do que afirma no Prólogo (Lc 1,3-4). (Por exemplo, em Lc 3, 19-22, a prisão de João Batista está antes do batismo de Jesus, o que é um estranho anacronismo!) Por sua vez, o Evangelho de Mateus, pela sua própria estrutura, segue, visivelmente, uma ordem temática, o que significa que não tem a preocupação de seguir uma ordem cronológica.
  8. Por falta de critérios objetivos em contrário, quando um discurso de Jesus se encontra em momentos diferentes, conforme a ordem seguida por cada um dos Evangelhos, transcrevemo-lo nesses vários momentos. O mais lógico é aceitar que Jesus repetiu muitos dos seus discursos e partes deles em momentos diferentes da sua vida pública, embora nós não conheçamos o respetivo contexto. Isto compreende-se, visto que o ensino era baseado na repetição e na memorização.
  9. Não havendo evidências para identificar duas ou mais perícopes (um pouco) parecidas como narrações do mesmo acontecimento, considerámo-las como narrações de acontecimentos eventualmente muito semelhantes, mas não do mesmo. Ao longo da sua vida pública, Jesus deve ter passado por muitas situações semelhantes, nas quais teria agido de forma semelhante e às quais teria havido reações semelhantes.
  10. Faltando outros critérios, seguimos a coerência das deslocações geográficas na Palestina.
  11. Quando não é possível seguir os critérios anteriores, seguimos a coerência narrativa, textual e gramatical.
  12. Em último recurso, valemo-nos do paralelismo com outros textos ou expressões dos Evangelhos em particular ou da Bíblia em geral.
  13. Não harmonizámos a expressão «Reino dos Céus», típica de Mateus, com a expressão «Reino de Deus», usada pelos outros evangelistas, partindo do pressuposto de que têm o mesmo significado.

O texto grego foi extraído da edição de Nestle-Aland 26.
O texto latino foi extraído da Nova Vulgata, mas foi alvo de diversas revisões, em conformidade com o texto grego.
Procurámos reproduzir o mais fielmente possível o conteúdo dos Evangelhos; e, como não podemos transpor o limite do conteúdo dos Evangelhos até ao que neles é narrado, procurámos evitar especulações infrutíferas.


Legenda desta tabela sinóptica:

  • ( __ ) Texto deslocado, dentro de cada Evangelho.
  • [ __ ] Textos minimamente semelhantes, mas que não é possível provar que sejam duplicações, ou textos colocados em ordem diferente.

Legenda da concordância dos Evangelhos:

  • (/__ ) Variante minoritária presente em algum dos quatro Evangelhos.
  • [( __ )] Outros textos do Novo Testamento.
  • { __ } Texto assinalado entre parênteses, na edição de Nestle-Aland 26.

Amostra de um dos textos harmonizados:

Evangelhos Outros textos paralelos do Novo Testamento Harmonização
Mt 26, 26-29 Mc 14, 22-25 Lc 22, 19-20 1Cor 11, 23-25
26 esthiontôn de autôn labôn o Iêsous arton kai eulogêsas eklasen kai dous tois mathêtais eipen labete phagete touto estin to sôma mou 27 kai labôn potêrion kai eukharistêsas edôken autois legôn piete ex autou pantes 28 touto gar estin to aima mou tês diathêkês to peri pollôn ekkhunnomenon eis aphesin amartiôn 29 legô de umin ou mê piô ap arti ek toutou tou genêmatos tês ampelou eôs tês êmeras ekeinês otan auto pinô meth umôn kainon en tê basileia tou Patros mou 22 kai esthiontôn autôn labôn arton eulogêsas eklasen kai edôken autois kai eipen labete touto estin to sôma mou 23 kai labôn potêrion eukharistêsas edôken autois kai epion ex autou pantes 24 kai eipen autois touto estin to aima mou tês diathêkês to ekkhunnomenon uper pollôn 25 amên legô umin oti ouketi ou mê piô ek tou genêmatos tês ampelou eôs tês êmeras ekeinês otan auto pinô kainon en tê basileia tou theou 19 kai labôn arton eukharistêsas eklasen kai edôken autois legôn touto estin to sôma mou to uper umôn didomenon touto poieite eis tên emên anamnêsin 20 kai to potêrion ôsautôs meta to deipnêsai legôn touto to potêrion ê kainê diathêkê en tô aimati mou to uper umôn ekkhunnomenon o Kurios Iêsous en tê nukti ê paredideto elaben arton 24 kai eukharistêsas eklasen kai eipen touto mou estin to sôma to uper umôn touto poieite eis tên emên anamnêsin 25 ôsautôs kai to potêrion meta to deipnêsai legôn touto to potêrion ê kainê diathêkê estin en tô emô aimati touto poieite osakis ean pinête eis tên emên anamnêsin 22 kai [Mc 14, 22] 26 esthiontôn de autôn [Mt 26, 26] o Kurios Iêsous en tê nukti ê paredideto elaben arton [(1 cor 11, 23)] 19 kai labôn [Lc 22, 19] o Iêsous arton kai [Mt 26, 26] eukharistêsas [Lc 22, 19] eulogêsas eklasen kai edôken [Mc 14, 22] tois mathêtais [Mt 26, 26] kai dous [Mt 26, 26] autois [Mc 14, 22] eipen [Mt 26, 26] legôn [Lc 22, 19] labete phagete [Mt 26, 26] touto estin to sôma mou to uper umôn didomenon touto poieite eis tên emên anamnêsin [Lc 22, 19] 27 kai labôn [Mt 26, 27] 20 kai to potêrion ôsautôs meta to deipnêsai [Lc 22, 20] kai eukharistêsas edôken autois legôn piete ex autou pantes [Mt 26, 27] kai epion ex autou pantes 24 kai eipen autois [Mc 14, 23-24] touto to potêrion ê kainê diathêkê [Lc 22, 20] estin [(1 cor 11, 25)] en tô aimati mou [Lc 22, 20] 28 touto gar estin to aima mou tês diathêkês [Mt 26, 28] to uper umôn [Lc 22, 20] [kai] to peri pollôn ekkhunnomenon eis aphesin amartiôn [Mt 26, 28] touto poieite osakis ean pinête eis tên emên anamnêsin [(1 cor 11, 25)] 25 amên legô [Mc 14, 25] de umin [Mt 26, 29] oti ouketi ou mê piô [Mc 14, 25] ap arti ek toutou tou genêmatos tês ampelou eôs tês êmeras ekeinês otan auto pinô meth umôn kainon [Mt 26, 29] en tê basileia tou theou [Mc 14, 25] tou Patros mou [Mt 26, 29]

Evangelhos Outros textos paralelos do Novo Testamento Harmonização
Mt 26, 26-29 Mc 14, 22-25 Lc 22, 19-20 1Cor 11, 23-25
26 Cenantibus autem eis, accipiens Iesus panem et benedicens fregit et donans discipulis dixit: «Accipite, comedite: hoc est corpus meum».
27 Et accipiens calicem et gratias agens, dedit illis dicens: «Bibite ex hoc omnes: 28 hic enim est sanguis meus testamenti, qui pro multis effunditur in remissionem peccatorum.
29 Dico autem vobis: Non bibam amodo de hoc genimine vitis usque in diem illum, cum illud bibam vobiscum novum in regno Patris mei».
22 Et cenantibus eis, accipiens panem, benedicens, fregit et dedit eis et dixit: «Accipite: hoc est corpus meum».
23 Et accipiens calicem, gratias agens dedit illis; et biberunt ex illo omnes.
24 Et dixit illis: «Hic est sanguis meus testamenti, qui effunditur pro multis.
25 Amen dico vobis quia iam non bibam de genimine vitis usque in diem illum, cum illud bibam novum in regno Dei».
19 Et accipiens panem, gratias agens, fregit et dedit eis dicens: «Hoc est corpus meum, quod pro vobis datur. Hoc facite in meam commemorationem».
20 Et calicem, similiter, postquam cenavit, dicens: «Hic calix novum testamentum [est] in sanguine meo, qui pro vobis funditur».
Dominus Iesus, in qua nocte tradebatur, accepit panem, 24 et gratias agens, fregit et dixit: «Hoc est corpus meum, quod pro vobis [datur]; hoc facite in meam commemorationem».
25 Similiter et calicem, postquam cenavit, dicens: «Hic calix novum testamentum est in meo sanguine; hoc facite, quotiescumque bibetis, in meam commemorationem».
22 Et [Mc 14, 22] 26 cenantibus autem eis, [Mt 26, 26] Dominus Iesus, in nocte qua tradebatur, accepit panem; [(1 Cor 11, 23)] et accipiens [Lc 22, 19] Iesus panem et [Mt 26, 26] gratias agens, [Lc 22, 19] benedicens, fregit et dedit [Mc 14, 22] discipulis; [Mt 26, 26] et donans [Mt 26, 26] eis [Mc 14, 22] dixit, [Mt 26, 26] dicens: [Lc 22, 19] «Accipite, comedite: [Mt 26, 26] hoc est corpus meum, quod pro vobis datur. Hoc facite in meam commemorationem». [Lc 22, 19]

27 Et accipiens [Mt 26, 27] 20 et calicem, similiter, postquam cenavit, [Lc 22, 20] et gratias agens, dedit illis, dicens: «Bibite ex hoc omnes». [Mt 26, 27] Et biberunt ex illo omnes. 24 Et dixit illis: [Mc 14, 23-24] «Hic calix novum testamentum [Lc 22, 20] est [(1 Cor 11, 25)] in sanguine meo; [Lc 22, 20] 28 hic enim est sanguis meus testamenti, [Mt 26, 28] qui pro vobis [Lc 22, 20] [et] pro multis effunditur in remissionem peccatorum. [Mt 26, 28] Hoc facite, quotiescumque bibetis, in meam commemorationem. [(1 Cor 11, 25)]

25 Amen dico [Mc 14, 25] autem vobis [Mt 26, 29] quia iam non bibam [Mc 14, 25] amodo de hoc genimine vitis usque in diem illum, cum illud bibam vobiscum novum [Mt 26, 29] in regno Dei, [Mc 14, 25] Patris mei». [Mt 26, 29]


Fórmula latina da consagração Do Diatessáron de Taciano Harmonização
Qui pridie quam pateretur, accepit panem in sanctas ac venerabiles manus suas, et elevatis oculis in coelum ad te Deum Patrem suum omnipotentem, tibi gratias agens, benedixit, fregit, deditque discipulis suis, dicens: «Accipite et manducate ex hoc omnes: hoc est enim corpus meum».
Simili modo, postquam cenatum est, accipiens et hunc praeclarum calicem in sanctas ac venerabiles manus suas, item tibi gratias agens, benedixit, deditque discipulis suis, dicens: «Accipite et bibite ex eo omnes: hic est enim calix sanguinis mei, novi et aeterni testamenti: mysterium fidei, qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum.
Haec quotiescumque feceritis, in mei memoriam facietis».
CLX, 1. Cenantibus autem eis, accepit Iesus panem et benedixit ac fregit deditque discipulis suis, dicens: «Accipite et comedite: Hoc est corpus meum, quod pro vobis datur».
2. Et accipiens calicem, gratias egit et benedixit et dedit eis, dicens: «Bibite ex hoc omnes: Hic est enim sanguis meus novi testamenti, qui pro vobis et multis effundetur in remissionem peccatorum.
3. Dico autem vobis: Non bibam a modo de hoc genimine vitis usque in diem illum cum illud bibam vobiscum novum in regno Patris mei. Hoc facite in meam memorationem».
22 Et [Mc 14, 22] 26 cenantibus autem eis, [Mt 26, 26] Dominus Iesus, in nocte qua tradebatur, accepit panem; [(1 Cor 11, 23)] et accipiens [Lc 22, 19] Iesus panem et [Mt 26, 26] gratias agens, [Lc 22, 19] benedicens, fregit et dedit [Mc 14, 22] discipulis; [Mt 26, 26] et donans [Mt 26, 26] eis [Mc 14, 22] dixit, [Mt 26, 26] dicens: [Lc 22, 19] «Accipite, comedite: [Mt 26, 26] hoc est corpus meum, quod pro vobis datur. Hoc facite in meam commemorationem». [Lc 22, 19]

27 Et accipiens [Mt 26, 27] 20 et calicem, similiter, postquam cenavit, [Lc 22, 20] et gratias agens, dedit illis, dicens: «Bibite ex hoc omnes». [Mt 26, 27] Et biberunt ex illo omnes. 24 Et dixit illis: [Mc 14, 23-24] «Hic calix novum testamentum [Lc 22, 20] est [(1 Cor 11, 25)] in sanguine meo; [Lc 22, 20] 28 hic enim est sanguis meus testamenti, [Mt 26, 28] qui pro vobis [Lc 22, 20] [et] pro multis effunditur in remissionem peccatorum. [Mt 26, 28] Hoc facite, quotiescumque bibetis, in meam commemorationem. [(1 Cor 11, 25)]

25 Amen dico [Mc 14, 25] autem vobis [Mt 26, 29] quia iam non bibam [Mc 14, 25] amodo de hoc genimine vitis usque in diem illum, cum illud bibam vobiscum novum [Mt 26, 29] in regno Dei, [Mc 14, 25] Patris mei». [Mt 26, 29]


Historicidade dos quatro Evangelhos

Não nos sendo viável transcrever todas as posições oficiais de todas as denominações cristãs sobre a historicidade dos Evangelhos, nem sendo esse o nosso objetivo, limitamo-nos a transcrever a posição oficial da Igreja Católica sobre este assunto.

«Origem apostólica dos Evangelhos
18. Ninguém ignora que entre todas as Escrituras, mesmo do Novo Testamento, os Evangelhos têm o primeiro lugar, enquanto são o principal testemunho da vida e doutrina do Verbo encarnado, nosso salvador. A Igreja defendeu e defende sempre e em toda a parte a origem apostólica dos quatro Evangelhos. Com efeito, aquelas coisas que os Apóstolos, por ordem de Cristo, pregaram, foram depois, por inspiração do Espírito Santo, transmitidas por escrito por eles mesmos e por varões apostólicos como fundamento da fé, ou seja, o Evangelho quadriforme, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João.

Caráter histórico dos Evangelhos
19. A santa mãe Igreja defendeu e defende firme e constantemente que estes quatro Evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação, transmitem fielmente as coisas que Jesus, Filho de Deus, durante a sua vida terrena, realmente operou e ensinou para salvação eterna dos homens, até ao dia em que subiu ao céu (cfr. At. 1. 1-2). Na verdade, após a ascensão do Senhor, os Apóstolos transmitiram aos seus ouvintes, com aquela compreensão mais plena de que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito de verdade gozavam, as coisas que Ele tinha dito e feito. Os autores sagrados, porém, escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo algumas coisas entre as muitas transmitidas por palavra ou por escrito, sintetizando umas, desenvolvendo outras, segundo o estado das igrejas, conservando, finalmente, o caráter de pregação, mas sempre de maneira a comunicar-nos coisas autênticas e verdadeiras acerca de Jesus. Com efeito, quer relatassem aquilo de que se lembravam e recordavam, quer se baseassem no testemunho daqueles 'que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra', fizeram-no sempre com intenção de que conheçamos a 'verdade' das coisas a respeito das quais fomos instruídos (cfr. Lc. 1, 2-4).»

Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina, Dei Verbum, 18-19.

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