Dubitando, ad veritatem parvenimus... aliquando! Duvidando, chegamos à verdade... às vezes!
 
Perguntas sobre o nascimento de Jesus (2)

II e III

Kai eteken ton uion autês ton prôtotokon; kai esparganôsen auton kai aneklinen auton en phatnê, dioti ouk ên autois topos en tô katalumati. — Et peperit filium suum primogenitum; et pannis involvit eum et reclinavit eum in praesepio, quia non erat eis locus in deversorio. — E deu à luz o seu filho primogénito, e envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles no alojamento. [Lc 2,7].

O mesmo termo kataluma aparece noutra passagem, referindo-se à sala do Cenáculo, anagaion mega, «um grande compartimento num piso superior» [Mc 14, 15-16]: Pou estin to kataluma mou, opou to paskha meta tôn mathêtôn mou phagô? — Ubi est deversorium meum, ubi Pascha cum discipulis meis manducem? — Onde está o meu alojamento, onde comerei a Páscoa com os meus discípulos? [Lc 22,11].

Concluímos, pois, que havia, em Belém, um alojamento qualquer num piso superior, no qual não havia lugar para a Sagrada Família, atendendo que Maria ia ter o Menino, e um compartimento com várias pessoas juntas não era o lugar adequado para tal efeito.

Naquela época, as casas palestinianas das pessoas que não fossem ricas eram, normalmente, de poucas divisões, tendo, muitas vezes, apenas um único compartimento, que era, ao mesmo tempo, sala de estar, cozinha, sala de jantar e lugar onde todos dormiam, no chão, envolvidos em esteiras. Quem precisasse de privacidade, tinha de procurá-la noutro lugar. Frequentemente, havia grutas abertas na rocha calcária, por baixo dessas casas. Estas grutas serviam de despensa ou de curral para os animais. Havia, pois, maior privacidade numa destas grutas, do que em cima, na sala de alojamento. Nada nos diz que José e Maria fossem mal recebidos em Belém, ou que tivessem andado de porta em porta!

Quer construída sobre a gruta, quer noutro local (hoje, indicado por uma capela de S. José), situar-se ia a habitação dos pais de S. José, que veio recensear-se em Belém por ser da linhagem de David. Este assunto é mais complicado, até porque os Evangelhos dão-no como filho de Jacob [Mt 1, 16] e de Heli [Lc 3, 23]. A antiga explicação para esta filiação dupla é a de que José era filho de Jacob, o qual se casara com a viúva de Heli, seu irmão, segundo a «lei do Levirato» [Dt 25, 5]. Deste modo, S. José era, legalmente, filho do falecido Heli!

No séc. II, já é conhecida, através de testemunhos escritos, uma gruta onde a tradição indica ter sido o nascimento de Jesus, em Belém. Sabemos, por exemplo, que, por volta do ano 135, o imperador Adriano mandou plantar, em torno dela, um bosque de Adónis, por escárnio.

S. Justino, no século II, escreveu o seguinte: Na hora do nascimento do Menino em Belém, por não haver onde hospedar-se nesse vilarejo, José encontrou refúgio numa gruta próxima ao povoado e, enquanto se encontrava ali, Maria deu à luz o Cristo e o depôs numa manjedoura, onde os Magos, vindos da Arábia, O encontraram. Esta indicação de uma gruta onde Jesus nasceu e foi adorado pelos Magos compreende-se, se esta for parte da casa (oikia) onde eles entraram, até porque vieram 2 anos depois do nascimento d'Ele: Kai elthontes eis tên oikian, eidon to paidion meta Marias tês mêtros autou; kai pesontes, prosekunêsan auto; kai anoixantes tous thêsaurous autôn, prosênegkan autô dora: khruson kai libanon kai smurnan. — Et intrantes domum viderunt puerum cum Maria matre eius, et procidentes adoraverunt eum; et apertis thesauris suis, obtulerunt ei munera: aurum et tus et myrrham. — E entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, adoraram-no; e abrindo os seus tesouros, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra [Mt 2,11].

Por volta do ano 325, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, mandou erguer, sobre esta gruta, a Basílica da Natividade. No interior desta, através de dois corredores de escadas (um a norte e outro a sul do altar-mor), desce-se até ao interior da gruta, que mede 12 m de comprimento, 4 m de largura e 3 m de altura, com um altar a oriente com uma estrela de 14 pontas, na qual se lê Hic de Virgine Maria Iesus Christus natus est (aqui nasceu, da Virgem Maria, Jesus Cristo). Esta gruta encontra-se, hoje, transformada em capela, com as paredes revestidas placas de mármore e de panos, e com muitas velas e lâmpadas de azeite. A manjedoura é, atualmente, de mármore, situada no chão, num canto da gruta, próxima da escada do lado sul, mas, quando foi construída esta igreja, S. Jerónimo escreveu que a manjedoura era de barro. De qualquer maneira, a parede que se situa ao fundo desta, de forma arredondada, tem, talvez, a sua forma original. Na realidade, a gruta da natividade é uma parte de uma série de grutas ligadas entre si.

Numa destacada colina situada a leste, seria facilmente visível uma das fortalezas de Herodes, o Heródion. Esta fortaleza, de forma circular, tinha 4 torres, sendo a torre oriental mais alta que as outras três, e luxuosos aposentos, como uma sala de jantar cujo teto era suportado por quatro colunas, e, sobretudo, um peristilo de cerca de 27 m de comprimento. Nesta fortaleza, cujos fundamentos subsistem, viria a ser sepultado o rei Herodes, pouco tempo depois do nascimento de Jesus.

Também se diz que, debaixo do altar-mor da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, se encontram as... 5 tábuas da manjedoura do Menino Jesus, o que não merece credibilidade histórica!

IV

Não temos nenhuma informação fidedigna que nos diga que havia animais junto do Menino Jesus, quando Ele nasceu. A menção de um boi e de um burro na gruta deve-se aos Evangelhos Apócrifos, conjuntos de histórias, mais ou menos fantasistas, que começaram a ser escritas desde o séc. II.

Diz o apócrifo Livro do Nascimento da Bem-Aventurada Maria e da Infância do Salvador (Evangelho do Pseudo-Mateus): Ora, no terceiro dia após o nascimento do Senhor, Maria saiu da gruta, entrou num estábulo e depôs o Menino na manjedoura e o boi e o burro adoraram-No. Assim foi cumprido o que tinha sido dito pelo profeta Isaías: «O boi conheceu o seu dono e o burro a manjedoura do seu Senhor.» [Is 1, 3] Estes animais, pois, que tinham o Menino entre eles, adoravam-No sem cessar. Assim foi cumprido o que tinha sido dito pelo profeta Habacuc: «No meio de dois animais te manifestarás.» [Hab 3, 2].

Curiosamente, no texto hebraico e na Vulgata Latina, lê-se [Hab 3, 2] no meio dos anos! A versão grega dos Setenta é que diz [Hab 3, 2] en mesô duo zôôn gnôsthêsê — no meio de dois animais serás conhecido.

V

A palavra Anjo (em grego âggelos) significa mensageiro. Na Bíblia, os Anjos aparecem com aspeto de homens. Não consta que tivessem asas! Só mais tarde é que passaram a ser imaginados como seres parecidos com homens providos de asas, para se poderem deslocar do Céu (que se julgava que ficasse acima do firmamento) para a terra, e por influência das descrições dos Serafins e dos Querubins do Antigo Testamento, e das representações de Mercúrio, deus mensageiro, representado com asas!

Os Anjos são puramente espirituais: como podem ter asas, se não têm corpo?

VI

A falar com rigor, não sabemos quem eram os Magos, nem quantos eram, nem donde vieram!

Sabemos que eram magos, por isso mesmo astrónomos e astrólogos, que vieram de algum local do Oriente , que foram recebidos pelo rei Herodes, e que ofereceram ao Menino Jesus, como presentes, ouro, incenso e mirra.

Estes presentes podem sugerir que os Magos eram três; no entanto, já se fez variar o seu número entre três e doze!

A identificação dos Magos como reis vindos do Oriente, montados em camelos e carregados de tesouros para oferecer ao Menino Jesus, parece ter-se formado a partir de passagens do Antigo Testamento, como: E caminharão as gentes à Tua luz e os reis ao esplendor do Teu [sol] nascente. (...) Uma inundação de camelos cobrir-te-á. Os dromedários de Madiã e de Efá, todos os de Sabá virão trazendo ouro e incenso e anunciando o louvor de Yahwéh [Is 60, 3.6]. Os reis de Társis e das ilhas oferecer-Lhe-ão ofertas. Os reis da Arábia e de Sabá pagar-lhe-ão tributo. E adorá-Lo-ão todos os reis. Todas as nações O servirão. (...) E viverá e ser-lhe-á dado do ouro de Sabá. (Versão grega dos LXX: ...do ouro da Arábia [Sl 72(71), 10-11.15 a]. S. Justino, no século II, também escreveu que os Magos vieram da Arábia.

O resto da tradição encontra-se em escritos apócrifos. Vejamos, por exemplo, o evangelho arménio da infância: E, imediatamente, um anjo do senhor foi, apressadamente, ao país dos Persas, prevenir os reis magos para irem adorar o Menino recém-nascido. E estes, após terem sido guiados pela estrela durante nove meses, chegaram ao destino no momento em que a Virgem se tornava mãe. Porque, naquele tempo, o reino dos Persas superava pela sua potência e pelas suas vitórias sobre todos os reis que existiam nos países do Oriente. E os que eram os reis dos Magos eram três irmãos: o primeiro, Melcon (=Melchior), que reinava sobre os Persas; o segundo, Baltazar, que reinava sobre os Indianos; e o terceiro, Gaspar, que possuía o país dos Árabes. Tendo-se reunido sob ordem de Deus, chegaram no momento em que a Virgem se tornava mãe. Tinham apressado a caminhada e encontraram-se lá no tempo preciso do nascimento de Jesus. [Evangelho arménio da infância, V, 10].

Outro escrito apócrifo, um manuscrito siríaco, diz: Então três reis, filhos dos reis da Pérsia, tomaram, como por uma disposição misteriosa, um 3 livras de mirra, outro 3 livras de ouro, e um outro, enfim, 3 livras de incenso. Estavam vestidos com os seus ornamentos preciosos, tiara na cabeça e os seus tesouros nas mãos. Ao canto do galo, deixaram o seu país, com nove homens que os acompanhavam, e puseram-se a caminho, precedidos da estrela que lhes tinha aparecido. E o anjo (...), pela virtude do Espírito Santo, conduziu os reis da Pérsia a Jerusalém. (...) Ora Herodes, tendo formado no seu coração o desígnio perverso de matar o Menino ainda de tenra idade e os reis da Pérsia com Ele... (...) E eles reviram a estrela, que avançava diante deles até ir parar sobre a caverna. Então, mudando de forma, tornou-se semelhante a uma coluna de luz que ia da terra ao céu. Penetraram na caverna e aí encontraram Maria, José e o Menino envolto em panos e colocado na manjedoura.

O caráter lendário destas narrações apócrifas é evidente. Basta repararmos nas cronologias meramente fantasistas!

Curiosamente, Flávio Josefo, tão interessado em narrar os crimes de Herodes, não refere a vinda dos Magos nem a matança dos meninos de Belém, que seria o pior dos crimes herodianos. Isto serve para alguns historiadores negarem a historicidade desta perícope de S. Mateus. Esquecem-se, todavia, de que F. Josefo se baseia nos escritos de Nicolau de Damasco, cronista particular de Herodes, do qual diz o seguinte: Como vivia no reino de Herodes e era dos seus familiares, escreveu para o servir e gabar, não contando o que não importava à sua glória, mascarando muitos dos seus atos manifestamente injustos, ou esforçando-se por escondê-los com o maior cuidado. [A. J. Liv. XVI, VII, 1 §184]. A explicação parece óbvia!

 

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